Noite Malandra: uma só e nada mais

O dia havia nascido e raios quentes atravessavam a sua janela naquela linda manhã de abril. Eles penetravam as pálpebras de Alessandra fazendo-a abrir os olhos preguiçosamente. Seus olhos escuros como a noite negra piscaram lentamente tentando entender por que a noite acabara.

Bocejou.

Seus pés tocaram o chão procurando pelas pantufas brancas cheias de plumas deliciosamente macias. Calçou-as. Esticou mais uma vez os braços para que desenferrujassem. Moveu o corpo para um lado e depois para o outro. Agora criou coragem. Levantou-se.

Foi até o banheiro de seu quarto e olhou-se no espelho. Nenhuma olheira, nenhum sinal de cansaço. Teve uma noite agradável. Deu um sorriso para si mesma vendo o reflexo no espelho imitar sua expressão e, pensou: que boba! – Riu mais uma vez. Soprou o hálito contra a mão e sentiu necessidade de escovar os dentes. Escovou. Depois começou a desembaraçar os cabelos castanhos e enleados de tão finos que eram.

Ela tomou banho na água morna. Lavou o corpo delicadamente. Percebeu que o vapor havia formado nuvens finas dentro do banheiro e embaçado o vidro do box. Pensou em nele desenhar. A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi o homem que havia passado a noite com ela, em sua cama, brincando de fazer amor. Doce homem de sorriso torto, olhos intrigantes e jeito sedutor. Sério, irresponsável, organizado, safado e obediente. Ele era mesmo um enigma!

Desistiu de escrever a palavra ao não conseguir lembrar o nome dele. Nem havia bebido muito, não estava de ressaca, mas havia sentido a necessidade de “doar” o seu corpo a alguém naquela noite, no restaurante, enquanto comia mariscos e bebia vinho. Naquele momento, olhou à sua volta para verificar o ambiente tão intimista e fino. À sua esquerda estava a perdição, com seus olhos verdes que não paravam de encará-la. Ela retribuiu o olhar algumas vezes, até ele ir a sua mesa.

Sentou a sua frente. Ela não o enxotou, ao contrário, abriu um largo sorriso para recepcioná-lo. Os dois se apresentaram e começaram a conversar. Falaram muito brevemente sobre o trabalho e entusiasmadamente sobre o que mais gostavam de fazer. Riram e beberam um pouco. Ele, jovem, rico, boa pinta e elegante de jeito malandra. Ela, educada, fina e bela, parecia uma menina. Parecia.

Ele pensou no quanto tivera sorte naquela noite. Estava confiante de que dormiria com a menininha dos olhos grandes de jeito inocente. Para ela, o peixe havia mordido a isca e pensava que ele nem imaginava no que estava para se meter. Ele pagou a conta e saíram dali discretamente. Foram para a casa dela, no carro dela e somente por decisão dela. À pedido dela, ele ficou vendado durante todo o percurso. Estranhou no início, mas depois imaginou que fazia parte do jogo do sexo.

Subiram as escadas que davam acesso ao seu quarto. Ele mal reparou em sua moderna e distinta casa. Entre quatro paredes, mandou que ele tirasse a roupa, sem hesitar, ele o fez. Ordenou que ele se ajoelhasse diante dela, obedeceu. Deu um tapa forte em seu rosto e ele não sentiu dor nem desejo, sentiu encanto. Mandou que ele implorasse por ela, e ele sentiu enorme necessidade de agradá-la, de tê-la para si e somente para si. Implorou. Ah como a queria!

Sem perceber, estava perdidamente apaixonado, havia sido enlaçado, fora enfeitiçado, literalmente enfeitiçado. Não que ela tivesse feito bruxaria, mas o poder da sedução corria pelo seu sangue de forma incontrolável. Não havia como tirar de si o domínio nato que exercia sobre os homens. Tinha o controle de todos os que iam ao seu encontro. Bastava um toque seu para amá-la perdidamente.

Estava de bom humor naquela noite e decidiu não sacanear com ele como fizera com os outros que estiveram no seu quarto antes dele. Então tirou a roupa e foi deitar-se com ele. Realizou, mais uma vez entre tantas, suas fantasias. Encheu-se de desejo e prazer, tanto ele como ela, pois, naquele momento, ela era mais importante para ele do que a sua própria vida.

Os dois fizeram amor durante horas e, assim que acabaram, ela mandou-o embora, mas ele não quis ir. Ela bateu nele para que sentisse raiva dela. Ele nem revidou e seu amor pareceu crescer ainda mais. Era esse o efeito que ela causava. Não importava o que fizesse, todos a adoravam alucinadamente. Só havia um único modo de fazer com que ele parasse de amá-la.

Chegou perto da cômoda e pegou algo de dentro de modo que ele não visse o que era. Com seu jeito abrasador, envolveu-o mais uma vez em seus braços, beijou o seu pescoço até chegar à sua orelha e disse num sussurro:

– Boa noite, querido! Lembre-se que eu fui apenas um sonho seu.

E quando ele menos esperava, sentiu uma picada no pescoço. Apagou!

Ela saiu do banheiro revigorada, de alma lavada, assim como das outras vezes. Não sentiu um pingo de remorso. Secou os cabelos com o secador diante do espelho e achou-se mais uma vez vitoriosa, afinal, tinha ido à caça e derrubado o leão. Voltou para o quarto e vestiu um81uquLbLxTL._SL1500_a roupa.

Ao olhar para a cama, lembrou-se das últimas horas em que estivera com ele, ali. Não podia negar que havia tido bons momentos, que usara o corpo dele e depois o deixara jogado num beco qualquer. Não tivera trabalho para abandoná-lo ali, pois já tinha feito aquilo muitas vezes.

Melindrosa, pegou a seringa e começou a rir ao imaginar a dor de cabeça que ele sentiria quando acordasse perdido num beco sujo e fedorento. Na cabeça dele, ela seria o melhor sonho que tivera em toda a sua vida, jamais esqueceria o rosto dela. Poderia lembrar o tempo que passaram juntos no restaurante e de ter ido à casa de uma estranha, mas jamais acertaria o caminho tanto de sua casa como do seu coração.

Para fazê-lo dormir, ela usou o remédio da seringa quando precisava e descartou-a no lixo assim como fizera com ele. Não tinha como dizer que ele não existira em sua vida, porém, somente por uma noite malandra.

Por Brenda Carvalho

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