Conto: “Flores para ela”

O dia está findando, não tardará a anoitecer e ele logo chegará. Guardo meu material de trabalho e sento embaixo de uma árvore escondida, longe de sua visão.

Como previsto, ele atravessa o recinto olhando para os lados como sempre faz. “Não há perigo aqui”, gostaria de dizer. Há somente eu e você. E também os outros.

Sento-me na raiz da árvore enquanto ele se agacha para olhá-la.

– Eu voltei, querida – diz ele de maneira inaudível. Não escutei uma palavra sequer, mas sei o que disse de tanto que estou acostumada a vê-lo fazer isso. Com ele virei uma expert em leitura labial.

Como sempre, não poderia vir sem presente. Assim, ele entrega as flores a ela. Desta vez são rosas brancas.

Lembro-me da primeira vez que ele deu flores a Mariana, há quinze anos. Eram margaridas tão belas que combinavam com seus cabelos negros e compridos se fossem entrelaçadas em uma longa trança. Também ressaltavam o tom da pele cor de jambo e de seus olhos cor de mel.

Sei da história deles de cor e salteado. Uma belíssima história, diga-se de passagem. O tipo de história de amor que todas as garotas gostariam de viver. Eles se conheceram em uma rodoviária.

Ele, policial, havia acabado de chegar na área de embarque e desembarque. Era a pausa para o lanche antes que retornasse ao ônibus para seguir viagem. Sentou-se em um dos banquinhos que ficava junto ao balcão de uma das lanchonetes e fez o seu pedido. Todavia, antes que terminasse sua refeição, ouviu um som que lhe chamou a atenção. O policial apressou-se em comer para saber quem estava fazendo aquele barulho.

Assim que terminou, foi guiado pela gargalhada que tocava em seus ouvidos. Perto dali ele pôde ver uma moça de beleza cabocla e jeito inocente vidrada em uma TV que transmitia um programa de humor com apresentações de Stand Up Comedy.

Foi impossível não se apaixonar por tamanha beleza e inocência. Ele a observou por algum tempo até que chegou o momento de partir, mas Calebe não queria ir sem conhecê-la melhor.

Ele reuniu coragem o suficiente para ir até ela e foi o que fez. A moça tomou um susto quando se deparou com o homem alto, branco, de cabelos pretos e vestido de policial que chegou repentinamente ao seu lado.

– Bom dia, moça – disse em voz baixa.

– Muito bom dia! – Respondeu ela com um sotaque caipira.

– Meu nome é Calebe e estou de saída, mas antes preciso fazer um procedimento rotineiro só para garantir a segurança da rodoviária.

– E o que senhor deseja? – Disse ela com toda a inocência do mundo. Ele mal acreditava que ela pudesse cair na sua lábia.

– Preciso do seu nome completo. – Ele apostou todas as fichas, porém temia que ela pudesse descobrir a sua farsa.

O motorista do ônibus buzinou e Calebe viu que era o último passageiro. Começou a ficar com medo de que tivesse que sair dali sem conseguir o que queria.

A jovem piscou os longos cílios e se levantou diante dele revelando um corpo pequeno e frágil. – É Mariana Francisca de Sousa – seus olhos eram grandes e as sobrancelhas grossas. Era mesmo encantadora.

Ele a olhou nos olhos e agradeceu pela informação. Correu até o ônibus, onde o motorista o aguardava impaciente, e subiu dando uma última olhada na mulher que acabara de jurar que um dia reencontraria.

Além da beleza guardada nos olhos de seu coração, Calebe sabia apenas o seu nome, mas isso era o suficiente para que ele a localizasse, afinal, ele era policial e tinha acesso às informações de qualquer pessoa. Encontrar Mariana não seria difícil, a menos que ela tivesse mentido o seu nome e, a julgar pela bondade que ela tinha, duvidava que a história dos dois pudesse acabar ali.

Sua convicção estava correta e não demorou muito para encontrá-la. Por coincidência ou não, Mariana morava na cidade vizinha à dele. A partir de então, Calebe sempre arrumava um jeito de ir à cidade só para vê-la.

Inevitavelmente a vida trabalhou a favor para que os dois ficassem juntos. Em um ano começaram a namorar e, em mais um, estavam casados. Isso era de se esperar porque ele tinha um jeito galanteador. Sei que a beleza também contribuiu, pois até hoje, mesmo com os cabelos grisalhos, ele continua bonito.

Como sei dessa história? Simples. Toda vez que vem aqui faz questão de lembrar os momentos que estiveram juntos e a história de como se conheceram é uma delas.

Calebe passa a mão em seu rosto com muito carinho e beija a sua face. O sol recolhe os seus últimos raios. Depois de se despedir da amada, ele levanta e vai embora. Agora que ele se foi, também chegou a minha vez.

Está escuro e as pessoas prefeririam não vir aqui numa hora dessas. Quando me perguntam onde trabalho, elas torcem o nariz para a minha resposta. Perguntam-me se não sinto medo e acho que são tolas por me perguntarem isso, afinal, o local onde trabalho não há pessoas dispostas a oferecer perigo mesmo que quisessem. Tudo o que elas querem é ficar em paz.

Sei que o que Calebe fez foi errado. Para falar a verdade, não se sabe ao certo o que aconteceu e há rumores de que ele batia em Mariana. Até hoje a família o acusa pelo assassinato, ainda assim ele conseguiu se livrar das acusações. Todos da cidade desconfiam que foi ele e, por tudo o que tenho acompanhado ao longo desses anos, posso dizer que viver preso a esse amor é a pior forma de castigo que ele poderia ter tido. Apesar de tudo, sinto pena dele.

Antes de ir, vou até Mariana para olhar o seu rosto na pequena fotografia queflores para ela ele tanto admira. Ela era mesmo muito bonita, até mais que as rosas que estão sobre o seu túmulo. É uma pena que flores tão bonitas fiquem largadas ao relento apenas para serem vislumbradas pela Lua. Do que adianta dar tantas flores a Mariana se o perfume ela já não sente mais?

Pobre Mariana! Teve uma sorte tão infame.

Já tive vontade de estar em seu lugar só para ter alguém para me amar como Calebe a ama. Que tola sou eu ao imaginar isso. Tenho que me contentar com minha solidão e os amigos mortos que me fazem companhia durante minha rotina de trabalho como coveira do Cemitério das Rosas.

FIM

Por Brenda Carvalho

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