Relações superficiais

Eu falo contigo e você comigo. Eu estou do lado de cá e você do de lá. Milhões de quilômetros terrestres nos afastam, o vídeo da webcam, o teclado e o mouse do computador nos aproximam. Redes sociais, WhatsApp, ih, nem se fala. Minha santa Internet, por causa dela você chegou em mim e eu estou bem aí. Simples assim, no ligar do wi-fi.

Foi na tela do computador e no arrastar de dedos no celular que a Internet conseguiu aproximar todo mundo. As cartas foram praticamente extintas e acabaram sendo substituídas por mensagens instantâneas. Até o moribundo SMS está entrando para a lista dos excluídos, quase dividindo espaço com os falecidos MSN e Orkut na lixeira do computador da vida.

Eu no Brasil e você na França, na Inglaterra, em Tóquio, Nova Zelândia, Omã* [que diacho é isso? Sei lá, só sei que tem Internet]. Amigo, pra que sair de casa e me encontrar com você se você está aqui, na tela do meu celular? Curte e compartilha, pfv.

Fez aniversário? Ele te pediu em casamento? Passou na faculdade? Aprendeu a cozinhar um ovo? Posta no Instagram, querida.

Alguém te desagradou? Posta uma indireta na timeline que é pra inimiga ver quem é que dá beijinho no ombro. Se for pra não verem, manda no PV do Whats porque fazer ligação incomoda demais.

Não tenho Whats, você pode me ligar? É só pra ouvir a sua voz. Ih, credo, sua retrógrada. Sai da bolha, museu, e vem fazer parte do meu grupo no WhatsApp, é só para os escolhidos, eu te adiciono e você dá “bom dia”, uma renca vai fazer o mesmo e ninguém vai te perguntar como você está de verdade. É só pra repetir, faz parte, é coisa do grupo, faz bem para a administração dele, meu novo negócio. Obs: Só para modernos, viu?

E a modernidade também chegou na forma de conversar com os amigos e desconhecidos. Ela criou as redes sociais, que são como fios que ligam distâncias grandes e pequenas, o que não quer dizer que a distância seja, de fato, encurtada.

No calibre da novidade, é preciso energia para dar continuidade ao vício que se chamaInternet e toda a parafernália que funciona através dela. No lar, o lugar do calor humano, aquele em que o sangue é mais do que vida, é comum ver a bateria do celular acabando e um amigo chamando para se despedir depois de uma breve visita em que conversaram, lado a lado, trocando mensagens em uma roda de colegas em que o único barulho ouvido era o “fiu fiu” do Zap Zap.

Chega um momento em que é preciso buscar o carregador quando a bateria ameaça acabar. Carregador na tomada, conector no celular e os picos da bateria começam a subir. Ufa! Mais vidas pro Mário*. Ao retornar para se despedir, foi-se o amigo, foi embora sem abraço ou voz, sequer um aperto de mão. O calor humano esfriou e se tornou um morno conjunto de caracteres. Deu “tchau” por mensagem.

Resultado: O que era para aproximar, acabou afastando.

 *Omã – Único país que começa com a letra ‘O’ na língua portuguesa.

*Mário – Em alusão ao popular personagem Mário dos jogos de videogame.

Por Brenda Carvalho

Texto publicado originalmente no site Olhar Cidade

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